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8.5.13

#46 - Pincelada

Arte de Lauro Monteiro - Paraty, RJ, Brasil.


O objeto que mais me intrigou na caixa foi o pincel. Não por ser apenas um pincel, mas por estar com a tinta ainda fresca. Fez com que eu a sentisse mais perto de mim, mais real, fresca, possível, e em nenhum momento abstrata.

Com a tinta que ainda havia ali, eu pincelei a única parede totalmente branca de casa. Uma curiosidade de fazer o impossível, fazer o irreal por aquela que me deixou. Aquela que eu mais amava. A pincelada foi de um canto a outro da parede. Na imensidão branca que se abriu, aquela aquarela de cores variadas, difusas, se espalhava em apenas uma faixa no centro.

Quando eu terminei, olhei o que tinha feito e dei de frente com a nostalgia. O coração disparou e eu fechei os olhos.

De repente, estava em um corredor desconhecido e, no fundo, com uma porta branca. Um branco impecável, de doer a vista. Fui até o fim e entrei.

Entrei em um ateliê impressionante e mágico. A sala era grande e luminosa. A claridade se destacava com cores por todos os lados, das paredes ao chão, dos quadros aos corpos. Diversos quadros espalhados, bancada com tintas, pinceis. Na parede uma grande prateleira cheia de livros e, no centro da sala, um piano. Cores vivas remediavam à primeira vista. Tons de amarelo, verde, natureza. Tudo era vivo, cores de alegria, de sorriso e esperança.

E, perdido no meio de tantas cores, no canto da sala, um quadro branco. No quadro branco se destacava uma pincelada, idêntica a que dei na parede de casa, de um canto ao outro. As cores difusas, destacavam o branco, a angústia, a solidão.

Meu coração disparou novamente. Era uma sensação de estar chegando próximo de quem eu queria, de estar desafiando o destino, a distância e as consequências.

Com o pincel ainda nas mãos e de costas, ela soltou palavras que preencheram o vazio que há muito tempo existia. Ela estava ali, inteira, viva, ainda interligada a mim.

7.5.13

#47 - Amar é viver em um mundo particular

Lione Bakker - Netherlands

Dizem que quando duas pessoas se amam elas ficam bobas. Começam a se tratar de maneira diferente, a falar igual criança, a fazer caretas que só elas têm, começam a descobrir os lugares que o outro tem mais cócegas, começa a rir de coisas bobas e que só fazem sentido para os dois.

Quando duas pessoas se amam, eles criam um mundo particular. Ou dois mundos particulares. Um infinito de mundos particulares, onde o endereço é o amor. No qual a razão é o amor. No qual chega um ponto que o amor é a maior razão que existe entre duas pessoas. 

Um mundo compartilhado nos olhares. Uma comunicação à parte. Uma rede social compartilhada a dois, em pequenos gestos. A rede social de pupilas cheias, de pupilas pequenas, de pupilas brilhantes, de lágrimas. Lágrimas de amor, de tristeza, de raiva, lágrimas de saudade, de amor.

Um mundo compartilhado em sorrisos. Uma infinidade. Sorrisos diferentes, amargos, doces, sem graça. Sorrisos amarelos, forçados, sorrisos de amor. 

Um mundo concentrado no movimento dos lábios. Um mundo concentrado no movimento das sobrancelhas. Um mundo eternizado no abraço. Abraço quente, apertado, encaixado. Quem ama se encaixa. Se encaixa gostoso. Sente o calor do abraço, sente a dor do abraço. Abraçar dói. Abraçar apertado dói. Dói a coluna, dói a costela, tira o ar. Fica amarrado. Imóvel. Imune. Protegido. Abraço de proteção. Continua sem ar. Mas sem ar de amor. Amor tira o fôlego. Amar é compartilhar o mesmo ar que respiramos.

 Amar é viver, compartilhar. Amar é viver uma comunicação a dois. Diferente de todas, em um mundo particular.

6.5.13

#48 - Nossas recordações chegam por correio



Terry Heffernan - São Francisco, Califórnia

Acordei com o interfone tocando. Quando atendi, já tinham desligado. A campainha tocou e, ainda dormindo, recebi o carteiro. Era uma caixa, pouco maior que uma caixa de sapato. Quando vi quem era o remetente, não consegui segurar o choro. Não tinha endereço nenhum, apenas o seu nome, escrito à mão, o que eliminava as chances de eu conseguir chegar até ela, de alguma forma.

Trêmulo, deixei a caixa em cima do sofá e procurei uma tesoura. Meu coração pulsava em um ritmo, ao mesmo tempo, ansioso e alegre, por ter contato com algo vindo dela. Ela ainda pensava em mim, tinha algum carinho, algum sentimento. Peguei a tesoura e rasguei o papelão que envolvia a caixa. Era uma caixa dura, com estilo antigo, uma espécie de baú.

Abri o baú e encontrei delicadezas, que só após um tempo, percebi que tinham algum nexo. Um: Pincel de tinta, provavelmente para pintar quadros, com a tinta ainda fresca. Dois: Um frasco de perfume. Sim, o seu perfume. Três: Uma pasta com 18 fotos. Fotos de todos nossos aniversários de namoro. Quatro: Um postal, de nossos personagens favoritos da Disney, o Woody, a Jessy e o Buzz Lightyear. E por fim: Um lenço vermelho.

Eu fiquei paralisado por um bom tempo. Não sabia o que fazer com aquilo na minha frente. Dentro de uma caixa ela resgatava grande parte da nossa história.

Então, decidi que iria, a partir daquele momento, resgatar tudo o que vivemos juntos.

5.5.13

#49 - Pesadelo




E, de repente, ela acabou com tudo. Assim mesmo, sem mais nem menos, tudo que construímos se acabou.

Por telefone.

Desliguei atordoado.

Os negativos de nosso filme rodavam na minha cabeça. Nenhum conseguia se projetar no coração.

A sala estava cheia. Todos comiam pipoca e chocolate. Casais abraçados queriam ver o espetáculo.

Lágrimas nem sempre eram a solução. Chorei. Procurei a solidão correndo. Corri até o abismo. Percebi que isso era tudo que eles queriam. Começaram a entender o fim.

O filme começou. Plateia atônita. Queriam rir? Chorar?

Começaram a ver a tortura de uma história. Cada detalhe era muito.

Tudo é princípio, tudo é primórdio, primeiro.

O primeiro olhar, primeiro beijo, primeiro toque. A primeira vez que senti o seu perfume, a saliva. A primeira vez que a toquei e lhe arranquei suspiros. A primeira vez que dissemos que era amor. O primeiro mês, o segundo. O primeiro ano. A primeira despedida. Tudo isso se projetava na tela.

Plateia de boca aberta. 

A última ligação antes de dormir. O último "eu te amo" antes de dormir. O último "Até amanhã". 

Sono sem fim.

O sonho. O pesadelo. 

A plateia fugiu. A sala estava vazia. Não tinha filme nenhum.

Acordei com a campainha. Era dos correios.

Soluçava o pesadelo entalado na garganta.

Acordava eu aqui.

Juntos ou distantes.

Um dia a mais do resto de nossas vidas. 

4.5.13

#50 - Eu reconheço, amor.

Niki Dima - Atenas, Grécia


Quantas vezes precisei viajar sozinho: a trabalho, estudo, diversão... Quantas vezes deixei você em casa por uma semana, duas no máximo, mas deixei. Você me esperava. Mesmo com a saudade insuportável. Me esperava regando todos os dias a jabuticabeira, a samambaia, fazendo o café da manhã, cuidando do nosso cantinho.

Agoniada, aflita, querendo notícias, respostas, saber se eu estava bem, o que eu estava fazendo, com quem. Vira e mexe me interrogava, pedia a ficha completa de meus passos, e eu não entendia por quê.

Dois ou três dias sem escutar sua voz. Talvez uma mensagem ou  ligação de poucos segundos, e mesmo com a pequena distância nossos corações se esmagavam.

A distância jorrava como água quente, cozinhava o nosso amor, deixava-o mais sensível, à flor da pele. E não importava ser apenas um dia de distância, ser dois, uma semana. Qualquer minuto longe fazia a diferença.

Os dias passavam por passar. Nada tinha importância pra nós dois. Pra mim, às vezes, o compromisso. Pra você, a solidão. O facebook, o almoço em família, a casa, as plantas, a escola, nada fazia sentido.

Nossos corações se dividiam, paravam, ficavam em stand-by.

Agora, o jogo mudou, e meu coração se foi para onde você está. Reconheço, meu amor, que essa dor parece eterna e sem fim. Chegou minha vez de ficar agoniado, aflito, imaginando mil coisas. Na cabeça passa o lado pai, irmão, amigo, amante.

Dias longe, sem sentido, querendo consumir uma informação que não existe, querendo consumir o seu corpo. Inventando uma geografia particular, um mapa próprio onde eu consiga localizar você. A única coisa em comum entre nós são os dois corações pulsando juntos.

Queria pedir pra trazer de volta o que levou embora.

A dor que critiquei, subestimei, agora eu sinto. Essa dor volta pra mim ainda mais forte. Sinto na pele o que você sentia quando encharcava o nosso travesseiro de lágrimas.

Quando a saudade bate no peito, ela transborda pelos olhos.

Dói, muito, e minha cabeça fica em você, não tenho saída. Explodo. Olho para todos os lados, desesperado. Dói demais. Nem morfina resolve.  Cada lágrima que já dedicou a mim, dedico o dobro pra você, sem saber se vamos nos ver de novo. Sabendo apenas que mesmo com dor o nosso amor continua vivo.

3.5.13

#51 - Uma carta ao destino

Arte de Lauro Monteiro - Todos os direitos são reservados ao artista. http://www.flickr.com/photos/lauromonteiro_varandabrasil/3749772757/sizes/z/in/set-72157621796897210/


São Paulo, 2012

Hoje acordei decidido a lhe enviar uma carta. Não serei capaz de escrever tudo que preciso, mas escrevo o que consigo. Talvez seja a solução esvaziar o que guardo em mim e, reprimido, sinto e sofro.

Começo a entender que a hipótese, possibilidade, se transformou em certeza. O que seria de mim sem você?

É insuportável a dor de não ter você ao lado.

O arrependimento já bateu faz tempo. Se soubesse que sofreria assim, teria preferido te sequestrar, fugir, fazer você perder o voo. Não me importaria se me chamassem de louco ou doente. Anormal sou eu agora, que todos os dias me levanto procurando solução.

Só quando perdemos é que damos valor aos nossos planos, ao futuro que brincamos de construir, a dois, deitados no chão da sala, assistindo a todos os filmes da Disney. Assistindo Toy Story, Monstros S.A, Pequena Sereia. Éramos crianças juntos e acreditávamos no “era uma vez...”.

Começamos nossa história com “era uma vez” e agora brincamos em um conto de fadas, brincamos em uma literatura perdida no perfeito. E com dor escrevo o que terá final feliz. Desafio qualquer limite com minhas palavras, desafio qualquer especulação, mesmo quando me deparo com a realidade da ausência.

Mesmo com a incógnita da sua partida, confio que tudo ainda está em pé, como deixamos antes de você me acordar dizendo que iria embora. Onde quer que você esteja, estarei fiel ao nosso amor e às promessas que fizemos.

Só quero a sua boca na minha, só quero o seu toque em mim.

E, meu amor, tudo que peço é um sinal de que o nosso “pra sempre” ainda existe. E mesmo se esse silêncio permanecer, essa solidão, as interrogações, não vejo outro caminho, a não ser esperar você a minha vida inteira.

Eu te amo.

2.5.13

#52 - Crônica sobre o amor a distância

Luis Rodríguez López - Granada, Espanha.


A distância não muda o amor, apenas o meio de amar.

Amar a distância é idealizar e sofrer de esquecimento, uma espécie de amnésia do amor. Esquecer a pele, o olhar, os detalhes do corpo, o toque daquele que você ama. É fazer o amado virar uma celebridade, daquelas que quando vemos pessoalmente não acreditamos ser de verdade.

Quem dera pudéssemos nos ver pessoalmente a qualquer hora!

Amar a distância é trocar o "oi", seguido de selinho, por um "oi" com você dizendo "beijinho" apenas no final da ligação.

Amor a distância é covardia com os apaixonados. Não é prova de amor, é tortura.

O amor a distância é um devaneio de lembranças. É pertencer àquele a que ninguém pertence, é pertencer ao futuro que nem sabemos se um dia vai chegar.

Trocar o físico pelo virtual não é privilégio nenhum, é picaretice do amor. É passar vontade.

Amar a distância é ser rico e não ter dinheiro para comprar a presença dela, nem o corpo dela, nem o beijo ou uma beliscada. É ver um casal alheio junto no metrô e só poder salivar. Passar vontade.

Amar a distância é a tragédia que se mantém. É o sofrimento que queremos que sempre permaneça, é a dor que queremos que continue, pois se um dia acabar não teremos chão. Melhor ter um amor na webcam do que uma ex mais solta que arroz de festa na House Party "cus amigu".

E digo mais: a dor da distância não caleja ninguém, apenas nos deixa mais sensíveis. A distância valoriza ainda mais o amor.