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21.6.13

#02 - Chegou a hora (ou quase)

Foto de Roberto Cambusano

Chegou a hora de renascer,  voltar a viver, colocar pilha no relógio, atualizar o calendário.

Chegou a hora de dar mais valor à vida, de aproveitar os segundos, de viver cada dia como se fosse o último.

Chegou o dia de ver tudo colorido novamente,

Chegou o dia de sair da caverna, sair do escuro.

Chegou o dia de subir até o cume da montanha.

Chegou o dia de voltar a sorrir.

Não tem nada que me impeça disso.

Chegou a hora de ser uma nova pessoa.

Chegou a hora de fazer a revisão, de tirar o proveito, aprendizagens

Chegou a hora de fazer festa

Chegou a hora de cair na real, sair do nada e ter destino.

Chegou a hora de sair de um mundo de mentira, descartável.

Chegou a hora de entrar do conto de fadas

Chegou a hora de amar e sentir

Chegou a hora de pegar, apalpar, retomar o tato, o olfato

Chegou a hora de lembrar o que é beijar na boca, sentir o seu gosto.

Chegou a hora, é agora.

Mesmo incompleto não tem essa de desistir, é esperar.

Chegou a hora de reconhecer que a esperança é a força que nos permite sempre acreditar.

Chegou o dia que a vida vai mudar,

Chegou o dia mais feliz da minha vida.


20.6.13

#03 - Geada


Enquanto a geada compõe a estética do jardim matinal, eu olho pro céu enquanto tomo café.

Parece sonho, mas não é. Tô olhando pro céu pra ver se passa algum avião. Ou será que ela vem de trem? De bicicleta?

Que venha voando, batendo as asas, mundo à fora, e retorne para o seu abrigo e proteção.

Eu só queria saber se você dormiu bem. Se você acordou bem. Se as malas estavam prontas. Mas não existe telefone sem fio que me dê essa resposta.

Meu coração palpita cada vez mais forte e acelerado. Inevitável não saber o por quê. 

Quero te proteger de todos os males da vida. Quero te blindar de tudo e de todos. E quero te receber de braços abertos. Você mora dentro de mim e seu abrigo é nos meus braços.

Que esse sonho se transforme no dia mais feliz da minha vida.

19.6.13

#04 - O mundo volta a ser um só

Flávio Scholles - Casal na cama

Os dias são relativos e me levam pra dois mundos, dois lados. Enquanto eles passam, aumentam a saudade pela distância entre nós dois, e, por outro lado, me faz saber que é um dia a menos para o reencontro.

O fim se aproxima, e chega a hora de voltar no mesmo lugar em que te vi partir. Não entendo até hoje por que fiz isso. Eu abri o próprio abismo em que me afundei, parece eterno, mesmo que temporário.

Da despedida ficou o beijo salgado de nossas lágrimas misturadas, e o sacrifício de um abraço interligado pelo nosso magnetismo. Um abraço com começo e sem fim.

Guardei nosso beijo dentro de uma concha e não lavei a camisa que eu usava quando nos despedimos, seu cheiro ainda estava ali.

A impotência de te ver entrar na sala de embarque e não poder mais te alcançar, de dar o último beijo, mesmo que nessas ocasiões nenhum beijo satisfaça a despedida. Logo, você já estava misturada com as estrelas do céu do outro lado do mundo.

A saudade que eu deixei partir, que me fez viver, me fez sentir.

Nas lembranças é impossível conter a dor, que aos poucos é substituída pela alegria e pelo sorriso.

Eu corro, a mil por hora, em qualquer hora, eu corro até você, eu corro pra te ver de novo.


18.6.13

#05 - Asma



Durante toda a minha vida foi assim: Asma.

Foi pressentimento.

Falta ar. 
Muito ar. 
Respiração ofegante.

Ansiedade é armadilha.
É egoísmo querer chegar mais rápido que o tempo.
É egoísmo não cumprir etapas.

Mas você me leva a isso. 
Minha cabeça me leva a você.
Eu quero chegar em você, e não deixar você chegar em mim.

Atitudes são consequências.

Meses passaram sem significado, sentido, à toa.
Olho por todo o lado e o mundo não para, mas eu parei.
Tudo passa por mim e eu não saio do lugar.

Suspiro essa ansiedade de te consumir e aproveitar o tempo perdido.
Tempo que convivi com uma falsa derrota.
Uma derrota criada em mim. Derrota da sua ausência.

É um sacrifício respirar.
Não consigo dormir,
Sonho acordado, na cara dura.

E só o seu cheiro será capaz de me tirar dessa insuficiência respiratória.


17.6.13

#06 - Melhor amigo do homem (ou das nossas crianças)

Chad Spector - UT, USA

Queríamos ficar até mais tarde na cama, mas eles nos acordavam à força, aos beijos, às lambidas. Forçavam nossas mãos com o focinho em troca de carinho. Não queríam saber, eles tinham essa liberdade, entravam e saíam do quarto na hora que quisessem. Arrumavam um espaço no meio de nós, no quentinho do edredom, e achavam um jeitinho de dividir a cama com a gente.

Snow só atende aos chamados em inglês, a dona preferiu assim.

Galileu não atendia a chamados. Era do tipo arteiro, irresponsável, que só queria brincar, só queria carinho, chamar a atenção.

Um gostava de nadar. O outro, de cavar buracos no jardim. Os dois gostavam de bolinhas.

Quando os gêmeos nasceram, eles passaram a dormir ao lado do berço. Não arredavam dali e latiam se algum estranho se aproximasse. Pena que o latido acordava as crianças, que depois ficavam inquietas, querendo brincar.

A primeira palavra que Fred disse foi "now now"; Sophia, "ieu ieu"...

Quando as crianças estavam no carrinho, eles estavam de pé, ao lado, lambendo-as. Gostávamos desse hábito. Elas se sentiam seguras. Eles, protetores. Faziam o papel deles. 

Na maioria das vezes colocavam, com a boca, a bolinha dentro do carrinho e depois ficavam esperando que elas jogassem. 

Mas hoje Galileu e Snow invadiram o nosso quarto, puxaram a coberta desesperados, queriam chamar nossa atenção. Pensamos nas crianças e corremos para o quarto. Era só uma bolinha que caiu embaixo do berço...

Melhores amigos se ajudam, se amam, se protegem. Eles são nossos melhores amigos, e nunca haverá preço que pague por isso.

Eles querem atenção e companhia e nunca sairão de nosso lado. Pena que não duram para sempre... Mas prefiro pensar nisso outra hora.

16.6.13

#07 - Ansiedade

Rodrigo Dada - El Salvador


Sonhava com você todas as noites. E, quando não, parecia não dormir. Fechava os olhos só pra deixar o tempo passar.

Minha mãe me ensinou desde cedo que devo orar antes de dormir, agradecer e pedir as coisas pro papai do céu. Tornou-se rotina pedir toda noite pra sonhar com você.  

Quando sonho, às vezes acordo sorrindo, às vezes chorando, outras vezes volto a dormir pra continuar o sonho.

Dia desses pedi para não sonhar. Já tinha cansado de te pedir em sonho. Queria você de verdade comigo, pele a pele, corpo a corpo. Mas, sonhei. Sonhei que você estava voltando.

A partir disso os últimos dias foram com os olhos abertos, e o meu maior desafio foi lidar com a ansiedade.


15.6.13

#08 - Carrego os dias nas mãos

Pablo Picasso - Espanha

Um dia, ela foi embora. Saiu de casa sem mais nem menos.

Eu a procurei por todos os cantos, por  resquícios que pudessem denunciar seu paradeiro. Procurei dentro de mim. Adentrei as cavidades mais profundas e só encontrei o amor e a saudade que cresciam descontroladamente.

Apalpei a cama, procurei por toda a casa, abri gavetas, armários, convivia com a sua ausência.

Sua imagem era tão viva, ainda, que quando o telefone tocou eu achei que era ela e atendi com um "Oi, Baby".

Então o interfone tocou. O porteiro estava com uma carta dela na portaria. Era um cartão-postal da Disney e um xerox da sua passagem de volta.

Eu já podia contar o tempo que restava. A partir daquele momento, cada dia da semana seria o último sem ela.