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14.6.13

#09 - Chegou pelas ondas

Igor Sperotto - Porto Alegre

Não sei como fui parar na praia, mas já estava lá, de pés descalços. 

As ondas quebravam em minha frente, parecendo que queriam me arrastar para o mar, mas meus pés se fincavam ao chão.

Todas as energias que me sobrecarregavam havia um bom tempo pareciam ir embora com aquela brisa e afundar em alto-mar. Não queria compartilhar dessa solidão, mas já compartilhava fazia muito tempo.

Uma onda, maior que todas, me atingiu. 

Acabei caindo sentado na areia, mas depois que ela foi embora percebi uma garrafa. Era uma garrafa de vidro transparente, com uma rolha que a tampava. 

Dentro dela, uma folha enrolada. Aquilo me pareceu coisa de filme, conto de fadas, ou qualquer coisa do tipo. E eu li com um sorriso de orelha a orelha, indisfarçável:

  
"Meu amor, desculpe por todo esse tempo em que te deixei só, sem notícias de mim. Precisava desse tempo. Precisava entender o que a vida quer de mim. E ela me mostrou.

Volto dentro de uma semana. 

Continuo a mesma pessoa que te deixou meses atrás. Continuo com o mesmo amor por você, esse amor que só cresceu e se tornou forte e sólido. 

Pertenço aos seus braços, e que essa eternidade não tenha fim."




13.6.13

#10 - Dia de Santo Antônio

Foto de Julio Sampaio - Portugal

Chegamos a fazenda no fim da tarde. Era dia de arraiá. Dia de Santo Antônio Casamenteiro. 

O sol já estava indo embora, mas por estarmos isolados da cidade, rodeados pelo campo e pelo pasto, o céu trazia uma cor belíssima. Já nos devidos trajes de caipira, com chapéu de palha, maria chiquinha e dente faltando, selamos nossos cavalos e fomos até a igrejinha da fazenda vizinha, onde ia acontecer o arraiá.

No meio do caminho eu decidi mudar os planos. Pedi para ela me acompanhar e comecei a trotar mais forte com o cavalo. Ela ficou para trás, mas não me perdeu de vista e ficou gritando para que eu a esperasse. Não dei bola, fazia parte da brincadeira. 

Chegamos ao mirante improvisado no pico do pasto. Ela queria me matar por eu tê-la feito correr tanto. A luz natural começou a ir embora, e nós fomos ficando no escuro e então ela percebeu por que eu a tinha levado ali. Em primeiro lugar, não ficamos no escuro, o céu estava todo estrelado e a lua iluminava todo o campo. As luzes da cidade começaram a se acender aos poucos, e de uma hora pra outra a paisagem ficou linda. 

- É lindo! - ela disse.

Olhei pra ela e vi que as lágrimas escorriam no seu rosto de caipira. Ela chorava compulsivamente. A surpresa a atingiu de uma forma inesperada que aflorou a sua sensibilidade. Ela me encarou e não conseguiu fazer nada, apenas me abraçou com muita força. Eu a coloquei em meu peito. Queria que ela se sentisse segura perto de uma pessoa que a ama. Uma pessoa que sempre terá um abraço acolhedor nas horas difíceis. Ficamos uma eternidade abraçados. 

Eu me ajoelhei ao lado dela, peguei as duas alianças no meu bolso e...

- Quer casar comigo?

Ela não respondeu.

Depois disso fomos para o arraiá, entramos na igreja e fizemos questão de agradecer o Santo Antônio, o Santo Casamenteiro.

Viva Santo Antônio!
Viva o nosso amor!

Mesmo que por enquanto fique só na quadrilha.

12.6.13

#11 - FELIZ DIA DOS NAMORADOS



Quero escrever pra você, meu amor. E não tem literatura que supra a sinceridade do olho no olho. Hoje eu não posso olhar nos teus, mas deixo que essas palavras olhem por mim.

Cansei de imparcialidade. Decidi ser parcial. Decidi assumir. Falar diretamente para você, Thainá.


Feliz dia dos namorados pra você que não está presente ao meu lado, e sim aqui dentro. Está impregnada na alma assim como o seu perfume ficou em minhas lembranças.

Cansei de me frustrar procurando palavras pra tentar descrever o meu amor por você. Eu me frustro e sofro. Meu coração dói. Dói tanto. Mas não adianta, a vida inteira vai ser assim, nenhuma palavra ou prova de amor chegará aos pés de tudo que sinto.

Somos prova de que não há distância que nos impeça de amar.

Longe de você esse tempo foi sem graça e sentido, onde não derramei nenhum suspiro. Na sua ausência nada faz sentido, e eu também não quero. Prefiro ficar nesse escuro que já estou há 10 meses. Sem enxergar cor ou brilho em nenhum jardim, aquarela ou arco íris.

Eu te procurei pra tentar descobrir algum sentido, e chorei quando vi nossas lembranças no meu quarto, todas do mesmo jeito que você deixou. Sofri pelos resquícios que sobraram de nós.

O que me conforta é saber que essa é a última de tantas datas distantes um do outro, tantas datas em que só te achei nas recordações. Fotos e bilhetes que ainda estão na geladeira, nas cartas, nos presentes passados, no ursinho de pelúcia que está na minha cama, no frasco de perfume que você me deixou. Ah, esse seu perfume que ainda está no meu travesseiro. Queria tanto senti-lo em tua pele.

Como é bom se apaixonar e ter a certeza que a distância não é obstáculo. Se eu te esperei foi por amor e se eu faço tantos planos é porque acredito no 'pra sempre'.

Como é bom sentir o sabor do 'pra sempre'. Eu preciso de você ao meu lado, eu preciso do seu amor. Eu não quero mais ninguém na minha vida, eu só quero você. Quero construir o meu futuro com você.

E todos os dias eu tento provar meu amor como se não fosse ter a mesma chance amanhã. 

Que vivamos de provas de amor, de declarações,  flores, beijos e abraços. 
Que vivamos de olhares e sorrisos, que vivamos um do outro.

Eu te amo,

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!

Guilherme Mendicelli




11.6.13

#12 - O casamento

Fotografia que circula na internet. Assinatura e autoria na própria foto.

Os dois se conheceram desde muito cedo e já sabiam que queriam se casar.

O problema, a princípio, foi a idade. A família não iria aceitar o casamento dos dois, tão jovens como eram. Depois mais um problema surgiu, esse mais grave ainda: a distância.

Um dia ele acordou e não viu ela ao lado. Ficou sabendo que partiu por causa de um bilhete que ela deixou na geladeira. Então tudo mudou.

A partir de agora ele não tinha mais motivo para sorrir e nem para sonhar, mas sonhou e acordou chorando.

Chorava em frente ao espelho, pronto para subir no altar. Um filme de sua história passou na cabeça durante minutos. Lembrou de quando eles eram jovens e faziam planos e mais planos não sabendo se um dia se realizariam. Agora, um dos maiores deles acontecia.

Segurou o choro e a esperou no altar.

Quando ela apareceu continuou chorando, não conseguia parar de chorar. Nem tentou.

Ela vinha em sua direção sorrindo. Os dois se encaravam e carregavam no olhar a gratidão e o amor. 

Gratidão de deixar o tempo preencher os sonhos fazendo com que acreditassem no amanhã; e amor de terem nascido um para o outro.

Até hoje não há relatos de qualquer interferência no relacionamento e continuam felizes preenchendo as páginas de uma história atemporal.

10.6.13

#13 - O laço que carrego no dedo



Quando você foi embora eu prometi nunca tirar a aliança do meu dedo.

É um laço a mais de todos os que já temos. 

Supre a sua presença no dia a dia, no meu lado, em todos os lugares. 

Esse detalhe de prata representa tanto que já virou uma parte de mim
Anda comigo e faz companhia na hora certa. 
De vez em quando até conversamos. 
Sempre faço carinho. Rodo você no meu dedo. 
Rodo tanto que às vezes o dedo machuca.

Embaixo dele está um pedaço que não pertece mais a mim, um pedaço de carne da pessoa que eu era antes de te conhecer. 

Embaixo da aliança existe um passado que eu não quero mais viver.

Minha pele está branca, quase transparente, preenchida pelo brilho desse anel de prata.

Esse anel de prata se alojou no mesmo lugar, tomou posse do território, um lugar de onde nunca vai sair. Só sairá se for para mudar de mão.

Na aliança, o seu nome e a data de quando nossa história começou. 
Seu nome está gravado em mim. 
A data é sem validade, é imperecível.

Meu dedo tem dona. Minha vida tem dona.

E a aliança só é mais um de tantos laços da nossa história.







9.6.13

#14 - Eu perdi as contas



Mais um domingo acordou sem você. 

Já perdi as contas de quantos foram esses que não passaram da monotonia
sem graça, cor e sabor.
Sem palavras, adjetivos, substantivos, 
sem inspiração nenhuma.

Perdi as contas de tantas as coisas. 
tantas as recordações, lembranças,

Não sei se é por causa de mim ou do tempo.

Um lugar que sobra na mesa do almoço com a família,
Um lugar que sobra no sofá na hora do filme da tarde.
A pipoca que sobra na panela,
Meu ombro vazio sem você pra se encostar e descansar.
A companhia na hora do jogo do Corinthians,
Nós dois na missa ou no culto,
Nós dois, deitados na minha cama, só por deitar, conversando sobre as coincidências do universo.

Falta tudo, até da cosquinha que eu te faço, antes de você ir embora.


8.6.13

#15 - Dia da saudade



O dia da saudade não tem graça nenhuma.

Ele é como todos os dias sem você.
Todos os minutos.
Segundos.

A mesma saudade, sem tirar nem por.

A saudade que me deixa analfabeto.

Cego.
Surdo. 
Mudo.

A saudade que me deixa incompleto.
A saudade que me deixa morto de fome.

Fome do seu corpo.
Fome da sua presença.

Essa fome que só saciará quando eu poder dominar cada célula de seu corpo.