Páginas

7.6.13

#16 - Gratidão




O tempo, que antes saía do meu controle, agora cabe na palma das mãos.
A estrada, que antes não víamos o fim, avistamos.
O coração, que parecia desacreditar, acredita.

O sorriso, que antes quase não aparecia, aparece por tudo. 
Aparece à toa, de graça. 
Aparece sem eu mesmo perceber. 

Tudo que ficou estagnado, agora descongela.
O sol que ficou sem aquecer, aquece.
Queima e brilha.

Em todo canto, todas as coisas, todas as lembranças. 
Tudo é resquícios.
Tudo remete ao reencontro, aos nossos planos, à overdose de você. 

Os planos viraram ações.
Os sonhos, realidade.

E à vida, sobra a gratidão.

Gratidão de ter ao meu lado, permitir fazer  juras de amor, permitir pensar e chegar no amanhã.

Gratidão por ter te colocado lá, naquela hora, naquele momento, no primeiro momento do começo do resto de nossas vidas. 

6.6.13

#17 - Ingenuidade



Ingenuidade é achar que qualquer atração é amor. 

É falar que ama da boca pra fora por não ter tido a oportunidade de amar da alma pra dentro.

Amor verdadeiro não tem palavra que retrate; é achar que se conhece e descobrir que ainda não. 

O amor traz sentimentos que não conhecemos. É surpresa e frio na barriga. Sentimentos são lapidados e detectados com o passar dos dias, com a rotina, com a presença, com o abraço, com o beijo, com a necessidade de ter no dia a dia quem amamos.

Fica marcado como tatuagem. Único e perpétuo, mas só conhecemos ao acaso, quando menos esperamos, quando vivemos nosso primeiro e único grande amor. 

5.6.13

#18 - Os dias rastejam

Edward Hopper - Nighthawks

E os dias não passam, se arrastam. 
Não é à toa que você é a culpada de tudo que acontece no meu mundo. Você é o centro dele. 
Ele parou quando você foi embora. Estagnou-se. Meses passaram por passar, vegetaram em meio à saudade, à monotonia.
Dentro desse mundo eu sempre vivi de alegria, de sorrisos, declarações de amor. Vivemos juntos momentos inesquecíveis, interrompidos por essa distância que há de ter fim. 
Amar é viver diariamente com o medo da perda. E por amor eu vivo.
Vivi todo esse tempo incompleto. Amputado. Com um membro de mim faltando. A distância foi uma perda com tempo limitado, porque na nossa história a única coisa que é ilimitada, sem prazo de validade, é o amor. Um amor com direito a "pra sempre".
Queria que alguém pudesse me entender, mas a compreensão é relativa, e só aquele que amou de verdade poderá dizer.
E, na certeza de que a acomodação é o maior perigo de uma relação, o maior veneno, não me canso de agir da mesma forma todos os dias: acordo diariamente com o objetivo de provar meu amor por você. 

4.6.13

#19 - Agonizante como suicídio

Salvador Dalí

Meu coração vive com marteladas da vida que pregam centenas de pregos, perfurando ainda mais a minh'alma.

Sim, eu penso em me jogar do quarto andar.
Penso em me amarrar numa âncora e pular em alto-mar. 
Perder todos os sentidos afogado, torturado pelo desespero e falta de ar. 
Desespero que talvez seja menos agonizante que essa saudade.

Fecho os olhos no momento de loucura e me jogo dentro da banheira de casa. A água do chuveiro cai sobre a cabeça, me deixando aos poucos sem ar. Com a banheira já cheia, começo a escorregar para o fundo. Escorregar e sentir a água tomar todo o meu corpo, pescoço, minha cabeça inteira, até afundar. 

Os minutos passam, e eu sou tomado pelo desespero, pela agonia de ver sobre mim a superfície da água que me empurra para o fundo. Estou entre os extremos. O desespero da falta de ar e a liberdade logo em cima. Nessa hora é impossível não pensar nas suas palavras. 

Eu quero você, e a morte não me proporcionará isso. Você dizia pra mim que se eu fosse embora iria estragar nossos planos juntos, iria entregar você na mão de um futuro novo amor e fazer com que realizasse nossos sonhos com outra pessoa. 

Sim, é egoísmo da minha parte. Mesmo não tendo vontade nenhuma de viver sem você aqui. É egoísmo recorrer ao que há de mais fácil na frente. 

Engoli pouca água, mas voltei à superfície a tempo de não levar a ideia adiante. Tempo de me entregar ao que o coração não consegue suportar. Ofegante, chorei compulsivamente. 

Junto das lágrimas vieram palavras que foram diretas para o papel.

De repente, da janela vizinha, uma música. E, como o vento do mar em um fim de tarde de verão, Vinicius de Moraes sussurrou versos que preencheram uma parte do meu vazio:

"Amo-te afim, de um calmo amor prestante, 
E te amo além, presente na saudade. 
Amo-te, enfim, com grande liberdade 
Dentro da eternidade e a cada instante." 

3.6.13

#20 - Feriado

Adida Fallen Angel - Canadá

Fim de feriado é depressão, desespero, loucura. Não é nada fácil me despedir de você e voltar à rotina, voltar à realidade.

Feriado ao seu lado é paraíso, é sonho. É não perceber o tempo passar.

É começar a quinta-feira esbanjando entusiasmo e terminar o domingo esbanjando tristeza. Querer fazer os dias voltarem para ficarmos assim, um para o outro, integralmente. 

Chocolate quente, filme, edredom, pipoca, abraço, beijo, lugares novos, jogos de tabuleiro, jogos de carta, Toy Story, andar de bicicleta, de cavalo, comer os doces de mamãe.

Saber que a segunda está começando sem você é o fim. 
Segunda-feira é dia de fazer promessa, dia de regime, de trabalho, de estudo, de fazer surpresas.

Dia de mandar mensagem de bom dia e perceber a sua insatisfação com o sono e com a professora da primeira aula.

Dia de achar o maior número de programas que possam ser feitos ao seu lado durante a semana. 

Nada como parar tudo o que tenho pra fazer segunda, te ligar depois do almoço e dizer: 

- Amor, o feriado ainda não acabou. Nós criamos o nosso próprio feriado, criamos o nosso próprio calendário.

2.6.13

#21 - Um beijo

Arte de Gustav Klimt

Hoje acordei sem papas na língua, decidi falar o que estou sentindo sem nenhum ensaio pra isso.

"Estou com saudade do seu beijo!"

Ah, esse beijo molhado e gostoso.
Esse beijo suave em que nossas línguas dançam em perfeita sincronia.


Do beijo...
sem ensaio e repentino,
escondido e demorado,
quente a 1000 km/h,
lento e romântico.


Do beijo...
do beijo de língua,
de esquimó,
de liquidificador.

Que saudade...
de te ver na ponta dos pés,
de te prender no abraço,
de sair rodopiando sem direção.


Que saudade...
de sentir o seu gosto,
de morder seus lábios,
de ficar todo lambuzado de saliva,
sua saliva, nosso sabor,
sabor no nosso amor.

Nosso gosto compartilhado nesse mundo particular que adoro explorar.

Um mundo só nosso.

E essa saudade de saber o que é um beijo.

1.6.13

#22 - Bom dia



Sai de casa decidido como todos os dias. 
Enganei o porteiro e subi até o seu andar sem ele interfonar. 
Consegui bater na porta sem te acordar e fazer sua mãe abrir pra mim. 
Consegui convencer ela que você não estava cansada e que poderia acordar às 7 da manhã. 
Consegui a chave do quarto. 
Consegui abrir porta sem fazer barulho. 
Consegui fazer o cachorro não latir.
Consegui pular em cima de você de conchinha no edredom. 
Te abraçar sobre tudo e te encher de beijo.
Você abriu os olhos assustadas e quando sentiu o meu beijinho não exitou em sorrir. Resmungou um pouquinho, por charme e me abraçou.
Consegui te encher de beijos da manhã, sem você ter ido escovar os dentes. 
Consegui te mostrar o que escrevi no vidro da sua janela úmida da noite anterior. 
Consegui tirar um eu te amo de uma voz que resmungava de sono. 
Consegui cumprir o objetivo de todos os dias: Provar meu amor por você.