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28.5.13

#26 - Quase uma crônica cinematográfica



O cinema para o casal, no começo do relacionamento, é essencial. É feito de etapas, e a nossa não foi diferente.

No começo, o cinema é o melhor programa pra se fazer. A ocasião certa para os primeiros encontros. O único problema é que não sabemos contar como foi o filme após a sessão.

Depois vem a fase que conseguimos medir a qualidade do filme. Nos momentos fortes estamos vidrados na tela, enquanto meu braço está a envolvendo e a sua cabeça repousa no meu ombro. No momento ruim, rola aquele beijo lento, suave e romântico.

Depois, infelizmente, vem a fase do beijinho antes do filme começar. Durante o filme, no máximo um selinho. O que vale mesmo à pena é o momento junto, abraçados, quentinhos e um bom filme pra contar depois.

O problema é que eu cheguei na fase em que o cinema é sinal desespero, de tortura. Cinema sem você não faz sentido.

Olhar ao lado e não ter ninguém pra repousar o braço é tragédia.

Cinema sozinho é pedir para dormir. É desestimulante para um apaixonado.

É passar frio. É passar por cima da vontade tentadora e não comprar pipoca.

É acordar no fim do filme e chorar vendo os créditos.

É fazer de tudo para que nenhuma atitude marque a sessão, para que ela passe em branco como todos os dias sem você.


É fazer com que você traga o verdadeiro significado pra mim.

27.5.13

#27 - Dia 27

Nataly Borodina - Russia


Postagem de número 27 no dia 27. O último longe de você.

O tempo passa e nós não percebemos.

O cabelo muda.
A barriga muda.
A voz muda.
A cor muda.
A rotina muda.
A cabeça muda.
A distância muda.
A casa muda.
Tudo muda rápido.

O tempo deixa lembranças pra trás. Algumas, eternizadas no dia 27.

Resistente ao tempo, a rosa que eu te dei no dia 27 não ressecou.
O beijo que te dei no dia 27 ainda não acabou.
Aquele dia 27 existe em nós todos os dias.



26.5.13

#28 - Sentados na lua



Caminhava pelo acostamento. O farol dos carros me cegava. Andava em frente sem saber onde pisar. Apenas seguia, sem medo do que vinha, sem medo do destino. Estava entre o campo e a cidade, estava entre a metrópole e a solidão

De repente, não tinha mais nenhum carro na pista. Caminhava só. Olhei para cima e vi um céu estrelado. Estrelas se distribuíam como em uma obra de arte.

Três delas começaram a piscar e locomover. Uma delas, vermelha. O avião andava cada vez mais baixo, parecia pousar próximo dali. Depois que ela foi embora todo avião era sinônimo de esperança, a esperança de trazê-la de volta.

Entrei em uma estrada de terra a minha esquerda. Dessa vez a lua cheia era quem apontava no horizonte. Tão cheia que ocupava os extremos da estrada. Uma claridade perfeita, amarela, intensa. A imensidão absurda ficava próxima de mim. Um céu em sincronia. 

Fechei os olhos e desejei tocá-la.
Abri os olhos e vi as estrelas do avião saindo da minha frente.
Ela estava do meu lado e nós estávamos sentados na lua.

Olhei pra ela e sorri sem acreditar no momento. Estávamos sobre tudo. As estrelas, agora, ainda mais próximas. Podíamos tocá-las. As luzes da cidade ao fundo criavam um segundo céu estrelado e o breu do campo ganhava a nossa claridade. 

Juntos entre dois extremos: Estrelas e escuridão. Cidade e campo. Sonho e realidade.



25.5.13

#29 - Vulneráveis

Bel Diniz - Belo Horizonte


Somos vulneráveis ao mundo, ao tempo e momento.
Vulneráveis demais para vivermos sem proteção.
Somos vulneráveis sem ser, temer ou viver na escuridão.
Brincamos de se equilibrar na soleira do vigésimo andar.
Pulamos do avião sem saber se o paraquedas vai abrir.
Mergulhamos o mais fundo, profundo, sem saber se dará tempo de subir.
Carregamos em nosso beijo um balão de ar
Andamos pelados em uma praia popular
Aceleramos o carro a 200 por hora na serra dos Tamoios
Pegamos “jacaré” na onda gigante sem saber nadar.
De carona na Jubarte entramos em alto-mar.
Chegamos na ilha deserta sem ter como voltar.

Nós lemos aquele livro sem saber o fim.
Nosso amor nos protege, e vivemos uma história assim.

24.5.13

#30 - Casinha simples

Mike Hedrick - USA


Uma casa pequena. Amarela.
Um jardim imenso. Florido.
Uma árvore em frente. Mangueira.
Na mangueira uma balança. Na balança nossas crianças.
Na porta de casa. Dois cachorros.
Mais pro fundo, um lago.
No lago, vários patos. Peixes.
Do outro lado, um pasto.
No pasto, os bois e cavalos.
A vaca no curral.
A galinha no galinheiro.
O porco no chiqueiro.
Os pássaros em todo lugar. Piam, cantam, encantam.
Você na janela me observa vindo do curral com o leite da manhã.
Os cachorros correm até mim. As crianças também.
Cachorros pulam. Crianças abraçam. Eu olho pra você.
Nossos olhos reconhecem um sonho.


Choro em frente ao quadro enquanto você retoma as notas no piano.

23.5.13

#31 - A memória se desfaz

Ivan Ovchinnikov - Russia


Voltei ao ateliê. Ela tocava uma música no piano e não me percebeu entrando. Tocava tão bem.

- Você nunca tocou piano, como é que agora está tocando tão bem?

- Eu aprendi, oras. O tempo passa. Mas não é só o tempo, existe outra coisa nisso tudo.

- A saudade dói tanto. Olha pra mim?

- Não, não vou olhar. Você precisa respeitar as coisas, eu já disse.

- Eu estou respeitando.

- Mas precisa ainda mais. Passar por momentos difíceis significa amadurecer. Não pense que não está doendo em mim.

- Você não me deu resposta quando partiu, e eu acreditei apenas no nosso amor. Eu confiei em você.

- E deixou de acreditar? Continue confiando.

- A memória vai embora aos poucos e eu tenho medo de tudo que se desfaz. Um medo tão forte. É tão ruim deixar você ir embora pelas lembranças.

- Tudo se desfaz propositalmente. O tempo não engana ninguém.

- Mas eu não quero deixar ele se desfazer. Desaprendi a viver sozinho.

- As lembranças são vertentes do tempo, saiba disso.

- A memória também.

- Eu terminei aquele quadro, amor.

Eu fui até o quadro e de imediato senti a profundidade da pintura na nossa história. Ela conseguiu atingir o meu ponto fraco. Esperanças bailavam em mim, em nós, até que ela começou a tocar uma música no piano. Aquelas notas fizeram com que eu embarcasse em outra dimensão da nossa história. 

(continua amanhã)

22.5.13

#32 - Castelo na Areia

Leonor Reis - Porto, Portugal


Lembra quando brincávamos de construir castelo na areia? Éramos duas crianças se amando e brincando de inventar o amanhã.

Naquele dia construímos o maior castelo de todos. Conseguimos. Dizíamos que seria a casa onde moraríamos com nossos filhos. Tenho até hoje a fotografia.

Logo depois da foto começou a ventar muito forte e derrubou a torre direita do castelo. Olhamos um para o outro assustados e começamos a tentar reconstruí-la. Começou a chover. Era tarde.

A chuva levou todo o castelo, e nós vimos nosso sonho se esvair.

Estávamos encharcados. Você, com seu vestido de seda florido, olhava para o castelo indo embora com a água e gargalhava. Eu chorava e soluçava.

Você então sorriu e me abraçou toda encharcada. Me apertou forte contra o peito e disse: “Amanhã eu terei uma surpresa”. Levantou e correu, dançou, pulou e se foi pelo meio da rua.

No dia seguinte construímos o nosso castelo de argila.

Você me abraçou e sussurrou: “O nosso sonho será pra sempre”