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14.5.13

#40 - Eu quero cinzas




O passado antes de você foi insignificante.

O que mais me torturava era que você sofria pelo meu ontem.

Peguei uma lata e decidi queimar o resto das lembranças que existiam em mim. Nada antes de você me é relevante. Iria bailar em uma cerimônia de liberdade.  Pensar no ontem já me doía e por isso ia eliminar os resquícios que ainda sobravam. Eliminei.

Queria apenas ter te esperado, como espero hoje. Não precisava de mais ninguém.

Escrevi em fragmentos diversas referências que remetiam ao passado, amassei e coloquei na lata. Acendi um fósforo e fiz questão de acompanhar o fogo tomar posse de cada pedaço dos papéis. Alívio.

As chamas estavam formadas no chão da sala. Um espetáculo. Aos poucos comecei a sorrir e a me sentir aliviado. Pulava de alegria. Todos os papéis iam embora, o meu passado ia embora. Não precisava de nada que agora virava cinza. Nada foi importante e eu só descobri isso com você do meu lado. Meu passado agora só existia dentro da nossa história. Do dia que nos conhecemos até você ir embora.

Tinha esquecido que o meu hoje era sem você. Esquecido a dor de não ter você no meu dia. Mas, uma certeza eu tinha, que onde você estivesse estaria sorrindo. 

13.5.13

#41 - Ontem



Mariana D'Ornellas - Curitiba-PR

Segunda foto. Segundo mês.

Os dias se descaracterizavam. Os objetos e fotos da caixa alimentam sentimentos que devastavam o meu eu.

O sentimento de que o ontem foi melhor do que o hoje é inevitável. Reviver o passado é covardia. Ainda mais quando esse passado preenche o vazio que existe em nós. O passado de momentos que nem sabemos se um dia vai se repetir. Tudo que passamos é  melhor do que a solidão e angústia de hoje.

Mas o passado antes de te conhecer não foi melhor do que nada. O melhor começou em você. Eu só descobri a alegria, o sorriso, o preenchimento do vazio da alma, o amor de verdade, junto com você. Vivíamos em uma bolha, inertes a tudo que nos cercava.

Apenas o segundo mês juntos e parecia que estávamos tirando uma foto do nosso casamento. Esse é o problema. Passávamos a todos essa segurança, pelo olhar. Nossos olhares já pertenciam ao futuro. Se a culpa fosse só do olhar, ou das estrelas, não teríamos problemas. Mas o problema surgiu do coração e no dia dessa foto percebi que realmente estava gostando de alguém. Poderia gostar de alguém de verdade. Não era impossível. E, em um passe de mágica, todos meus falsos amores caíram por terra te colocando como a única.

Foi então que, em uma coincidência tradicional da nossa relação, na hora de nos despedirmos na porta de casa, nos olhamos sincronizados e dissemos: Eu te amo.

12.5.13

#42 - Feliz Dia das Mães

Lauro Monteiro - Paraty-RJ


- Fled, puique sela que o papai levou flores pra mamãe na cama?

- Porque hoje é dia das mães.

- O qui é dia das mães?

- É o dia feito em homenagem as mães. Temos que fazer tudo o que a mamãe quiser. O dia em que os filhos têm que comprar presente, fazer carinho, beijar e agradecer a mamãe por nos ter colocado no mundo.

- Então hoje u que a mamãe falar a zenti vai fazer?

- Sim. Temos que fazer ela feliz o dia inteiro. E não podemos brigar, somos irmãos e temos que fazer a mamãe sorrir.

- O papai também é filho da mamãe? Ele também tem que fazer tudu qui ela pidi, né?

- Não Sofia, é que sem ele a gente não nasceria. Foram os dois que nos fizeram. Graças ao papai é que nós nascemos da barriga da mamãe. Graças ao papai é que a mamãe é mãe. E se não fosse o papai a gente não iria existir. E graças a mamãe que o papai é pai. E graças a ela também que somos uma família. Entendeu?

- Num tendi. Maisi Fled puique não vamos ablaçar a mamãe agola?

- Porque o papai pediu para ficarmos aqui. Quando ele aparecer na porta com ela no colo você joga essas rosas que estão dentro da sacola pra cima, tá?

- Não fled, a floizinha dentro da sacola é vermelha.

- Sim, joga a florzinha vermelha pra cima então, agora, vai Sofia e grita: “FELIZ DIA DAS MÃES MAMÃE MAIS LINDA DO MUNDO”.


Chega um momento da vida onde aparece outra mãe no nosso caminho. Aparece aquela que permite que sejamos a pessoa mais feliz e realizada do mundo. Aquela que carrega dentro de si um pedaço eterno de nós. A mãe de nossos filhos. 

Dentro de nossos sonhos a paciência é cultivada, os dias são contados para que essa alegria preencha a necessidade. Feliz não é aquele que vive o amanhã, mas sim quem valoriza o hoje, sabendo que se o amanhã chegar trará consigo a felicidade e a realização.

11.5.13

#43 - Alicerce

Alessandro Assunção - Paraíba - Brasil



Em mural improvisado coloquei a foto do nosso 1º mês. Era uma das dezoito fotos da caixa. Como era bom resgatar o que o tempo deixou pra trás. Éramos apenas duas crianças.
  
Nunca soube o que é namorar de verdade. Sempre fui melhor amigo da liberdade, típica dos homens. Não deixava eu me prender em você, talvez por medo, talvez por orgulho. O tempo, no entanto, me provou ao contrário. O tempo me prendeu em você.

Nos encontramos após a ressaca de amores passados. Um passado de ilusão. Ilusão de confundir amor com um grão de areia.

Uma atração forte já nos primeiros dias. A diferença é que os dias eram um após o outro. Não nos permitíamos pensar no futuro. O dia era um jogo e eu me doava na esperança do amanhã. Jamais imaginaria que seria assim, como foi o primeiro mês.

O mundo parou só pra pensar em você. Ainda não conhecia seu mistério, cada curva do seu corpo. Ainda não sabia o verdadeiro sabor do seu beijo. Decifrava aos poucos um olhar ambíguo e mágico.

Começamos a procurar juntos os nossos refúgios. Os dias pareciam semanas. As semanas, meses. E o intenso pareceu brincadeira perto da leveza em que tudo fluía. Achávamos significados em cada ato, achávamos magia em cada beijo.

Interpretava a sua timidez e o silêncio nunca foi tão preenchido. Os abraços nunca foram tão quentes. Prendíamos-nos por medo. Adiávamos a despedida com medo de não haver o reencontro.

E agora, esse reencontro ainda é uma incógnita. Nesse conta-gotas de memória revivo o passado. Como nossos primeiros dias, sem saber o futuro, sem saber o amanhã. 


10.5.13

#44 - Crônica - Cabra-macho não se esconde


Sterling Clinton Hundley - Richmond, VA, USA

Quantas vezes nos fizemos de bobo apenas para se aproximar? Apenas para sentir a pele dela na sua?

Quantas vezes trememos quando chegamos perto da pessoa amada? Quantas vezes ensaiamos antes o que imaginávamos que íamos falar no primeiro encontro e na hora tudo travou? É o medo de travar. O medo do fracasso. Realidade do amor. Realidade dos primeiros encontros.

O fracasso anda junto com o amor. O medo do fracasso também. Mas é forte aquele que passa por cima e se aventura. Treme, sua frio, mas consegue dizer que gosta. Consegue dizer que ama. Consegue pedir um beijo.

O amar é ser covarde. Covarde por não pedir um beijo. Covarde por não dizer que gosta. Por não dizer que ama. Covarde pelo coração disparar, pela mente travar, por não nos sentirmos capazes. Por achar que tudo é um abismo. Por achar, infelizmente só achar, que ela não tá a fim. Muitas vezes não tá, mas cabra-macho é aquele que arrisca. Aquele que não tem medo de levar um fora. Que não se esconde. 

Cabra-macho é aquele que não liga para o que os outros acham e chega junto. Tem pegada e diz tudo com o olhar.

Cabra-macho é aquele que fala o que precisa e não deixa o amor ir embora. Amar também é oportunidade, se ela for embora, talvez não conseguimos de volta.

9.5.13

#45 - O começo ou o fim sempre volta

Janira Muños - Barcelona



- Foi mais fácil do que pensou?

- Tudo que eu queria era te ver.

- Está me vendo.

- Olha pra mim.

- Você tem que respeitar o tempo das coisas.

- Só quero olhar pra você.

- Então espera. Tudo tem o seu tempo.

- E por que você foi embora sem me falar nada? Sem me falar pra onde?

- Por que a vida nem sempre cabe na palma das mãos.

- Digo o mesmo pra você. Vai ficar de costas?

- Estou pintando.

- Eu te amo.

- Eu também.

- E o que é tudo isso aqui?

- Dê tempo ao tempo.

- E esse quadro que você está pintando? É o mesmo traço que eu fiz na parede.

- Foi uma maneira de te trazer até aqui. Primeiro você vai ter outras coisas pra fazer, pra resgatar. E depois vai saber o porquê desse quadro.

- Quais coisas? Eu só quero você por perto, quero você comigo.

- Mas é com essa distância que você vai valorizar todo o nosso amor.

- E você está dizendo que eu nunca valorizei?

- Não disse isso. Quero apenas que você dê tempo ao tempo. Na caixa que eu te enviei tem outros objetos. Saiba tirar a mensagem de cada um deles, todos têm um motivo para estarem ali. E, por último, vai começar a nossa melhor brincadeira, aqui dentro desse ateliê.

- Quanto tempo?... Ei, fala comigo...


Por fim, estava de volta a sala, com o pincel na mão. Olhava para a parede sem entender nada. Chorei sem perceber. E, de novo, parecia que tudo estava começando do zero. Todo o sofrimento, toda dor. A dor pela saudade, pela incógnita. A dor pelo amor.

8.5.13

#46 - Pincelada

Arte de Lauro Monteiro - Paraty, RJ, Brasil.


O objeto que mais me intrigou na caixa foi o pincel. Não por ser apenas um pincel, mas por estar com a tinta ainda fresca. Fez com que eu a sentisse mais perto de mim, mais real, fresca, possível, e em nenhum momento abstrata.

Com a tinta que ainda havia ali, eu pincelei a única parede totalmente branca de casa. Uma curiosidade de fazer o impossível, fazer o irreal por aquela que me deixou. Aquela que eu mais amava. A pincelada foi de um canto a outro da parede. Na imensidão branca que se abriu, aquela aquarela de cores variadas, difusas, se espalhava em apenas uma faixa no centro.

Quando eu terminei, olhei o que tinha feito e dei de frente com a nostalgia. O coração disparou e eu fechei os olhos.

De repente, estava em um corredor desconhecido e, no fundo, com uma porta branca. Um branco impecável, de doer a vista. Fui até o fim e entrei.

Entrei em um ateliê impressionante e mágico. A sala era grande e luminosa. A claridade se destacava com cores por todos os lados, das paredes ao chão, dos quadros aos corpos. Diversos quadros espalhados, bancada com tintas, pinceis. Na parede uma grande prateleira cheia de livros e, no centro da sala, um piano. Cores vivas remediavam à primeira vista. Tons de amarelo, verde, natureza. Tudo era vivo, cores de alegria, de sorriso e esperança.

E, perdido no meio de tantas cores, no canto da sala, um quadro branco. No quadro branco se destacava uma pincelada, idêntica a que dei na parede de casa, de um canto ao outro. As cores difusas, destacavam o branco, a angústia, a solidão.

Meu coração disparou novamente. Era uma sensação de estar chegando próximo de quem eu queria, de estar desafiando o destino, a distância e as consequências.

Com o pincel ainda nas mãos e de costas, ela soltou palavras que preencheram o vazio que há muito tempo existia. Ela estava ali, inteira, viva, ainda interligada a mim.